Cercado de preconceitos e desinformações, o suicídio é um problema complexo com estatísticas alarmantes. Em média, toda semana, cinco pessoas tiram a própria vida em Mato Grosso do Sul. Esse e outros dados reforçam a importância de se falar sobre o assunto constantemente e de modo especial neste mês, em que é realizada a campanha Setembro Amarelo de Prevenção ao Suicídio.
Arte: Luciana Kawassaki
Instituído pela Lei Estadual 4.777/2015, o Setembro Amarelo estimula o debate sobre o suicídio durante este mês como forma de prevenção e enfrentamento do problema. Essa atenção é imprescindível em uma época de elevada incidência de mortes autoprovocadas. Conforme o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, em 2020 (último dado disponível), 244 pessoas cometeram suicídio em Mato Grosso do Sul – são 20 mortes por mês ou cinco por semana.
O número de suicídios em 2020, embora tenha recuado levemente na comparação com alguns anos, dá continuidade à trajetória relativamente expressiva de casos: foram 263 em 2019; 268 em 2018; 259 em 2017; e 223 em 2016. Assim, somente nesses cinco anos, 1.257 pessoas tiraram a própria vida em Mato Grosso do Sul.
Independentemente das oscilações ano a ano, a quantidade de suicídios é alta. Isso fica evidente na confrontação com as mortes resultantes de outras causas. O número de suicídios em 2020 no Estado é maior que o de mortes decorrentes de algumas doenças, como insuficiência renal (219), câncer de mama (197), câncer de próstata (190), tuberculose (73), ou provocadas por outros fatores, como acidentes de trânsito envolvendo automóveis (127).
Os dados do Ministério da Saúde mostram também que o suicídio é mais frequente entre os jovens e entre os homens. Das 244 mortes registradas em 2020, 124 ou 50,8% foram de pessoas entre 20 e 39 anos. Em relação ao sexo, 192 suicídios (78,6% do total) foram cometidos por homens.
Complexidade e multiplicidade de fatores
As estatíticas informam a quantidade de casos e, por conseguinte, ajudam a dimensionar a gravidade do problema. No entanto, os números em si não possibilitam compreender o suicídio em sua complexidade. Na busca dessa compreensão, é preciso pensar o suicídio de modo aprofundado, o que pode ser feito com a ajuda de algumas áreas do conhecimento, sobretudo a Filosofia e a Psicologia. Dois profissionais dessas áreas contribuem, nesta reportagem, para a reflexão sobre algumas questões ligadas à morte autoprovocada.
Amir Abdala: “O suicídio é um problema que diz respeito à humanidade”
(Foto: Arquivo pessoal)
“A civilização contemporânea promove relações sociais que favorecem a elaboração de sentidos gratificantes para a vida ou, diferentemente, seus padrões de organização reprimem as melhores possibilidades humanas?”, questiona Amir Abdala, doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
O questionamento do professor parte de sua contestação à ideia do suicídio como um fenômeno isolado, estritamente subjetivo. “É imprescindível considerarmos que o suicídio não se restringe a dimensões individuais”, afirma. O suicídio não se limita à esfera individual por se relacionar a diversos fatores. “Elementos econômicos, sociais, culturais e políticos não devem ser desprezados”, enfatiza o professor Abdala.
Essa associação de fatores também é destacada pelo psicólogo Walkes Jacques Vargas, conselheiro eleito do Conselho Regional de Psicologia – 14ª Região (CRP-14/MS). No horizonte da Psicologia, o olhar se volta ao indivíduo, mas não o nota ilhado em si mesmo. “São muitos os desencadeantes psicossociais. Geralmente estão ligados às condições de vida do sujeito, como por exemplo sentimentos de desesperança, exclusão, inferioridade, discriminação (seja por classe social, gênero, raça, etnia, idade, sexualidade, etc), experiências pregressas de violência, pessoas com doenças crônicas ou incapacitantes, alcoolismo e/ou abuso/dependência de outras drogas”, ilustra o psicólogo.
As causas são muitas e complexas, porque as pessoas acumulam no decorrer de suas vidas inúmeras experiências, dores, cicatrizes. “Não se trata de olhar para uma causa, mas para uma série de fatores complexos que se acumulam ao longo da história de vida da pessoa”, afirma Vargas.
Acolhimento no lugar do julgamento
Essa complexidade em nada combina com julgamento e condenação, atitudes próprias de uma sociedade que dissipa o diálogo e irradia a culpa. “Vivemos em uma sociedade que ainda olha para esse fenômeno como algo ‘pecaminoso’ ao invés de acolher aquele que sofre”, observa Vargas.
Walkes Vargas: “A postura deve ser sempre de acolhimento”
(Foto: Arquivo pessoal)
Para o psicólogo, é preciso sensibilidade à dor do outro, acolhimento, diálogo. “Uma pessoa que pensa em provocar a própria morte geralmente é alguém que não consegue encontrar outra maneira para cessar seu sofrimento. A pessoa se sente tão afetada que tirar a própria vida se torna uma opção. Ao tratar o suicídio como algo proibido, podemos de certa forma impedir o diálogo e o acolhimento daquele que sofre. A postura deve ser sempre de abertura, acolhimento e diálogo”, acrescenta.
Acolher não significa, evidentemente, evitar que o suicídio seja consumado. Isso porque, segundo afirma Vargas, é muito difícil identificar alguém com ideações suicidas. “Existem pessoas que falam de uma forma bem nítida enquanto outras não conseguem falar abertamente de suas intenções dificultando assim a identificação. É um fenômeno multifatorial e complexo até para profissionais da área. Por isso a importância de acolher o sofrimento sem julgamentos é sempre um princípio que todos deveríamos adotar em nossas vidas”, reforça.
“O que afeta um ser humano interessa a toda a humanidade”
O filósofo argelino Albert Camus escreveu em O Mito de Sísifo que o suicídio é o único “problema filosófico realmente sério”. O professor Amir Abdala menciona essa sentença, mas diz que ela é muito discutível e não tem ampla aceitação entre os filósofos. “Refiro-me a ela, porém, porque nos remete ao campo de reflexões que examinam o valor da vida humana, as possibilidades existenciais, a construção de sentidos no mundo e a própria finitude dos seres humanos”, justificou.
Considerar a condição da existência humana é fundamental para se compreender o suicídio como problema não restrito a indivíduos. “A discussão sobre o suicídio é indissociável das preocupações atinentes à existência humana no mundo. Ou seja, deve ser enfrentada como algo que diz respeito à humanidade”, afirma Abdala.
Se tiradas as vendas do preconceito, da culpa, da condenação, talvez seja possível enxergar a humanidade partilhando as mesmas condições neste mundo e notar a importância de se construir sentidos à existência nas relações com o outro. Para o professor Abdala é por essa perspectiva que o suicídio deve ser tratado. “Os caminhos que considero razoáveis para o tratamento da temática articulam aspectos referentes à nossa condição humana no mundo e à construção de sentidos existenciais no plano das relações sociais. Um critério que, a meu ver, é pertinente para as reflexões sobre o suicídio consiste na avaliação segundo a qual o que afeta um ser humano interessa a toda a humanidade”.
Outras questões referentes ao suicídio foram tratadas pelos dois especialistas. Confira as entrevistas na íntegra com o professor Amir Abdala e com o psicólogo Walkes Jacques Vargas.
Leis aprovadas na ALEMS contribuem para prevenção ao suicídio
Arte: Luciana Kawassaki
A ALEMS propõe, discute, vota e define medidas diversas para o enfrentamento do problema. Há na Casa de Leis um grupo específico para promover o debate, fortalecer ou instituir políticas públicas sobre defesa da saúde mental e prevenção ao suicídio. Trata-se da Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental e Combate à Depressão e ao Suicídio, instituída pelo Ato 38/2019 da Mesa Diretora da Casa.
Outra importante forma de atuação diz respeito à elaboração, discussão, votação e aprovação de leis. Além da Lei 4.777/2015, que instituiu a campanha Setembro Amarelo, há outras normativas que fomentam ações de prevenção. Entre elas, está a Lei 5.448/2019, que determina a afixação de cartaz informando o telefone 188, do Centro de Valorização da Vida, nos espaços públicos, em local de fácil visualização. A mensagem no cartaz, de acordo com a lei, deve ser: “CVV. Como vai você? Ligações de prevenção do suicídio feitas para o CVV pelo número 188.”
Outra norma que se soma ao enfrentamento do problema é a Lei 5.483/2019, que instituiu a “Semana de Prevenção e Combate à Violência Autoprovocada: Automutilação e o Suicídio”. Essa campanha é realizada anualmente, com início no segundo domingo de setembro. A lei visa, entre outros objetivos, debater a violência autoprovocada e abrir espaço para profissionais da saúde apresentarem estudos sobre o assunto.
A legislação estadual de prevenção ao suicídio inclui, ainda, a Lei 5.598/2020, que obriga os estabelecimentos de ensino e de saúde, públicos e privados, a notificarem às autoridades públicas competentes a prática de violência autoprovocada, automutilação e tentativa de suicídio de que tomarem conhecimento.
Serviço:
Veja alguns locais e entidades que podem ajudar na prevenção ao suicídio:
Em meio à rotina de cuidados, desafios e cobranças que acompanham a maternidade, encontrar um espaço para falar, ser ouvido e compartilhar experiências também é uma forma de cuidado. Foi com essa proposta que a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), por meio da Gerência de Saúde do Servidor (Gersau), reuniu servidoras mães atípicas em um momento de escuta, acolhimento e troca de experiências.
A atividade integrou as ações do mês dedicado à valorização da vida e foi realizada na área verde da Sesau. Conduzido pela psicóloga Leyisa Sena, da Gerência de Atenção Psicossocial (GRAP/Sesau), o encontro criou um ambiente para que as participantes pudessem falar sobre sentimentos e situações que fazem parte de suas rotinas, muitas vezes marcadas pela sobrecarga e pela dificuldade de reservar tempo para si mesmas.
Mais do que uma palestra, a proposta foi abrir espaço para a escuta. Entre os temas abordados estiveram o autocuidado, a culpa, a autoexigência e a sensação de que, ao cuidar de todos, muitas mães acabam deixando as próprias necessidades em segundo plano.
“Quem era você antes de precisar cuidar tanto? O que você cobra de si que não cobra de outra mãe?”, foram algumas das reflexões propostas durante a conversa.
A partir dessas perguntas, histórias pessoais começaram a surgir. Relatos de desafios, descobertas, pequenas conquistas e também de sonhos mostraram como a identificação entre as participantes pode ser uma forma de alento.
“Meu sonho é que o meu filho fale”, compartilhou uma das servidoras. A frase, carregada de significado para aquela mãe, também evidenciou a importância de um espaço em que experiências tão particulares possam ser compreendidas por quem vive situações semelhantes.
Cuidar de quem cuida
Entre os participantes estava o único pai presente na roda de conversa, Darllon Duarte, 34 anos, gerente da USF Universitário. Pai de uma menina de 11 anos, que está em processo de diagnóstico, e de um menino de 10 anos com seletividade alimentar, ele falou sobre a culpa, a necessidade de dividir responsabilidades e a importância de reconhecer cada conquista dos filhos.
“A gente precisa olhar para a família. A gente foca na mãe da criança porque é o que está mais em evidência, é mais necessário esse olhar, muitas estão sobrecarregadas. Sabemos que existem muitas mães solo, que não têm rede de apoio, mas os pais devem se envolver. O pai precisa saber onde seu filho está, o que ele faz, o que come, como fazer aquela criança desenvolver. Temos que aprender, mas precisamos ser ouvidos também”, desabafou.
A técnica de enfermagem Nadiellen Rodrigues Brito Barbosa, 40 anos, também compartilhou sua experiência como mãe de um menino de 10 anos com seletividade alimentar. Para ela, falar sobre as dificuldades ajuda a ressignificar a culpa e a reconhecer os avanços que, para outras pessoas, podem parecer pequenos, mas têm grande significado para a família.
“Sofri muito. Sempre pensando onde errei. A culpa não adianta. Hoje levo o acolhimento. Hoje vejo ele comendo duas colheres de arroz e, para mim, já é um paraíso. É paciência, trabalhando a paciência”, relatou.
Gratidão e aprendizado
Assistente social do CAPS AD IV, Josimara Pasqualine, 51 anos, é mãe de dois filhos, entre eles um adolescente de 15 anos, nível 3 de suporte. Emocionada, ela destacou o significado de ser acolhida também enquanto mãe e não apenas no papel de profissional que cuida de outras pessoas.
“Já tenho 32 anos de serviço e esse é um momento histórico. Ser acolhida como mãe atípica e uma pessoa neurodivergente, todas as dificuldades que a gente tem, está sendo um momento grandioso. Eu me sinto recompensada, valorizada. A gente trata tanto das pessoas, cuida dos outros, e às vezes a gente não tem esse tempo. Esse olhar que a Sesau tem com o trabalhador tem sido portas e esperança. A gente precisa ser ouvida. Muito grata pelo convite e pela oportunidade”, disse.
Durante uma das dinâmicas, a psicóloga da Gersau, Cléo Cabral, escolheu a palavra “gratidão” para representar o sentimento daquele momento. Mesmo sem ser mãe, ela destacou que ouvir as experiências das servidoras também foi uma oportunidade de aprendizado.
“Ainda não sou mãe, mas sou grata por este momento. Aprendi muito com vocês. A gente aprende ouvindo e, no futuro, tenho o sonho de ainda ser mãe. Obrigada por compartilharem suas histórias e vidas”, revelou.
Para a psicóloga Leyisa Sena, proporcionar esse espaço de escuta também faz parte do cuidado com o servidor.
“A proposta é fortalecer vínculos, estimular o autocuidado e mostrar às servidoras que elas não precisam enfrentar sozinhas os desafios da maternidade”, afirmou.
A profissional também destacou o trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Apoio às Mães Atípicas (NAMA), criado pela administração municipal como uma política pública voltada ao acolhimento, organização e acompanhamento dessas famílias.
O cadastramento no NAMA pode ser feito pelo telefone (67) 99179-5948, canal também destinado à atualização de informações e ao acesso aos serviços oferecidos pelo núcleo.
Um novo medicamento para o tratamento da enxaqueca foi aprovado nesta terça-feira (8) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Aquipta (atogepanto) é indicado para adultos que têm pelo menos quatro episódios mensais de enxaqueca.
De acordo com a agência, a substância atua no bloqueio de uma via envolvida na transmissão da dor. Além disso, é capaz de prevenir o aparecimento das crises. O laboratório que solicitou o registro foi a ABBVIE Farmacêutica, conforme resolução publicada no Diário Oficial da União (DOU).
Os estudos apontam que o atogepanto é capaz de reduzir “significativamente” o número de dias mensais de enxaqueca.
Segundo a Anvisa, apesar de existirem opções terapêuticas para prevenção da enxaqueca, “muitas delas não atuam especificamente nos mecanismos fisiopatológicos da doença”. Por essa razão, o Aquipta representa uma nova opção de tratamento oral para prevenção da doença.
Sobre a doença
A enxaqueca é caracterizada por crises recorrentes de dor de cabeça de intensidade moderada a grave, frequentemente acompanhadas de náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e ao som.
A doença atinge cerca de 15% da população mundial, com impacto significativo na qualidade de vida.
Vacinas contra chikungunya e febre amarela serão aplicadas aos sábados, em setembro e outubro, na Sala de Vacinação do PAM. Foto: A. Frota/Arquivo/Assecom
A Prefeitura de Dourados, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, está ampliando as estratégias de vacinação contra a chikungunya e a febre amarela para facilitar o acesso da população e contribuir para o aumento das coberturas vacinais no município. Durante os meses de setembro e outubro, a Sala de Vacinação do Pronto Atendimento Médico (PAM) terá atendimento aos sábados, das 8h às 14h.
No mês de setembro, os atendimentos serão realizados nos dias 5, 12, 19 e 26. Em outubro nos dias 3, 17, 24 e 31.
A vacinação aos finais de semana é uma alternativa para quem não consegue comparecer a uma unidade de saúde durante os dias úteis. A estratégia também busca ampliar a adesão da população e reforçar a proteção antes do período de verão, quando as condições ambientais podem favorecer a circulação de arboviroses.
A Secretaria Municipal de Saúde reforça a importância de a população verificar a situação vacinal e procurar os serviços de saúde para colocar as doses em dia, conforme os critérios estabelecidos para cada vacina.
A preocupação é especialmente relevante diante do cenário epidemiológico da Chikungunya. Dourados já enfrentou uma importante epidemia da doença e a Secretaria de Saúde trabalha para ampliar a proteção da população e reduzir os riscos de uma nova onda de transmissão.
“A vacinação é uma das principais ferramentas de prevenção e precisamos facilitar o acesso da população. Ao oferecer a vacinação também aos sábados, estamos criando uma oportunidade para quem trabalha ou tem dificuldade de ir à unidade durante a semana. É importante que cada pessoa confira sua situação vacinal e procure a unidade de saúde”, destaca o secretário municipal de Saúde, Márcio Grei Vidal de Figueiredo.
CHIKUNGUNYA
A Secretaria de Saúde chama atenção especialmente para a vacinação contra a Chikungunya, destinada ao público que atende aos critérios definidos pelo Ministério da Saúde. A orientação é que pessoas com idade entre 18 e 59 anos verifiquem nas unidades de saúde se estão dentro dos critérios para receber a vacina.
A medida integra o conjunto de ações adotadas pelo Município para fortalecer a prevenção e preparar Dourados para os próximos meses.
FEBRE AMARELA
A campanha também reforça a importância da vacinação contra a febre amarela. A população deve verificar sua situação vacinal e buscar orientação nas unidades de saúde, especialmente quem ainda não possui o esquema recomendado. A Secretaria de Saúde orienta que a população não espere o surgimento de novos casos para procurar proteção e, também, ao ir receber a dose, levar documento pessoal e, se possível, a carteira de vacinação para conferência e atualização do esquema vacinal.